quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Dióptico Plano
Não me envolvo mais. Não me envolvo e quase todos os meus relacionamentos são superficiais. Os profundos que tenho são os de longa data... Por que de uns tempos pra cá desaprendi a sentir. Minhas vontades ficam divididas entre a saudade das emoções e o medo das decepções. Entre o medo de se entregar e a monotonia de uma rotina de solidão. Já ando desgastada, os pés descalços cansados, de tanto andar por esse labirinto que nunca me leva ao caminho certo. Dentre as voltas incertas, eu vejo a luz. Vejo-a, mas não posso tocá-la! Não tenho mais forças para esticar meus braços, nem fôlego para tentar novamente. Tanta superficialidade deixou-me tão fria,que não posso mais sentir o calor da luz. Por mais que eu a veja, e por vezes tente tocá-la, sou sempre envolvida pela entorpecente escuridão, na qual as dúvidas alimentam-se de meu juízo e crescem descompassadamente. Em minha face o disfarce dos gritos mudos que rasgam meu peito à procura de quem os ouça. Calo com um sorriso os possíveis questionamentos vindos de fora, já bastam-me os que tenho! Não vai adiantar querer arrancar de mim a verdade, com palavras cruas impetuosamente atiradas a mim. A minha verdade se esconde embaixo de tantos véus, que chego a perder as contas. A minha verdade não se entrega assim tão fácil, mesmo quando eu quero arrancá-la e mostrá-la para quem quiser ver. Diz a física que num dióptico plano você sempre vai ver distorcidas as dimensões perpendiculares à superfície de separação dos meios, ainda que sejam ambos transparentes. Você sempre vai enxergar a piscina mais rasa do que ela é. E por enquanto vai continuar vendo calmaria onde há tempestade, mansidão onde há fúria e sabedoria onde há insegurança. Se quiser saber quão profunda é a piscina, vai ter que se jogar. Por que a minha verdade, ela não se mostra tão fácil assim.
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